Na minha carreira, fui militar de 2 Forças Armadas diferentes: 3 anos na Marinha do Brasil e mais 5 no Exército Brasileiro.
Ingressei na Marinha aos 15 anos, perseguindo um sonho de criança. Na meritocracia da caserna, conquistei algum prestígio: fui adaptador-aluno e oficial-aluno comandante da 6ª Companhia. À época, porém, minha visão da instituição ainda estava muito calcada na experiência pessoal que eu vivia ali. Foco no "eu".
Por uma série de razões — várias delas documentadas em vídeo no canal Programação Dinâmica — optei por deixar o caminho do oficial combatente e mudar de rota para me tornar oficial engenheiro. Escolhi o Instituto Militar de Engenharia, descendente da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, fundada em 1792, antes mesmo da École Polytechnique, meu atual local de trabalho, fundada em 1794, durante a Revolução Francesa.
Ali, com um pouco mais de maturidade, passei a observar alguns processos com outra lente.
Talvez ainda pela inexperiência dos meus 20 e poucos anos, pudesse pensar que não parecia muito bem que com aquela formação, estivéssemos levando a sério o fato de que estávamos – ou deveríamos estar – sendo preparados para a guerra. Hoje, já tendo atingido a idade para poder me candidatar, inclusive, à Presidência da República, olho pra trás e tenho certeza de que não estávamos sendo preparados para a guerra.
Não para a guerra que o mundo enfrenta hoje. Não para a defesa deste país. Não para a garantia da soberania da nação brasileira.
Eu poderia falar, por exemplo, das guerras que acontecem neste exato momento, cada vez mais dependentes de alta tecnologia e engenharia sofisticada: mísseis, drones, inteligência artificial e tantos outros sistemas. Enquanto isso, minha formação insistia em colocar engenheiros para subir montanha e dormir no mato. Até hoje, aliás, entre tantas coisas que poderiam ser mostradas, o Instagram do instituto prefere publicar sobre concurso de ordem unida.
Como cidadão, isso me preocupa. Contudo há algo que me preocupa ainda mais...
Depois de ter jurado à bandeira 2 vezes, prometendo “dedicar-me inteiramente ao serviço da Pátria, cuja Honra, Integridade e Instituições defenderei com o sacrifício da própria vida”, eu me questiono como colegas militares e "ex"-militares se tornaram capazes de apoiar um projeto de entrega da soberania desta nação, do patrimônio do povo brasileiro, a uma potência estrangeira.
Em todo sistema há divergentes. Agora, se os divergentes forem justamente os que continuam levando a sério aquele juramento, talvez, realmente, não estejamos investindo na formação de defensores da Pátria.
Apesar de nunca ter projetado nada próximo de um míssil, passei 2 semanas na Amazônia. No Centro de Instrução de Guerra na Selva, vi uma frase que ficou comigo:
“A Selva nos une; a Amazônia nos pertence.”
Será que já desmatamos tanto que a selva não une mais?
E a Amazônia? Nos pertence… até quando?